Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

AGULHETADAS (56)

Foi tudo muito rápido. O super bom sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou-se. Não adiantaram as manobras dos super-técnicos que foram chamados. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal.
Ainda meio tonto, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas, todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava a acontecer, o super-bom abordou um dos passeantes:
- Enfermeiro, eu preciso de voltar com urgência para o meu novo reduto, porque
tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazido para cá por
engano, porque o meu seguro de saúde é o máximo que se pode ter, pago pelo papá, e isto aqui está a parecer-me mais a urgência dos Hospitais públicos. Confesso que nunca tinha visto as urgências nesta perspectiva. Onde é que nós estamos? - No céu.  - No céu?... – É, estamos no céu.
- O céu, CÉU...?! Aquele com querubins, anjinhos e coisas assim?
- Exactamente! Aqui vivemos todos em estado de graça permanente.
Apesar das óbvias evidências, ausência de poluição, toda a gente a sorrir, ninguém a usar telemóvel, o super bom levou tempo a admitir que havia mesmo batido a bota.
Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação tiradas daqueles livrinhos que se vendem a cinquenta cêntimos na Vandoma, que outros já leram sem resultados práticos, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana iria receber um bónus e estar fortemente cotado para assumir a posição de grande dinamizador das hostes para não fazer o trabalho doméstico em casa porque a importada também tem direitos.
E foi aí que o interlocutor sugeriu:  - Talvez seja melhor conversar com Pedro, o coordenador.
- É?! E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
- Não, não. Ele nunca faz nada de nada. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim?  E estalou os dedinhos. - Quem me chama?
O super bom quase desabava da nuvem. À sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.
Mas, o vidrinhos tinha feito um curso intensivo de approach  nas semanas que antecederam a sua promoção, para situações inesperadas e reagiu logo:
- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou um super-bom e...
- Super-bom... Que palavras estranhas. De que século veio?
- Do XXI. O distinto vai dizer-me que não conhece o termo super bom?
- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo. Foi então que o super bom teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão tipo empresarial. Logo, com seu brilhante currículo, pessoal, familiar e tecnocrático, o super-bom  poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.
- Sabes, meu caro Pedro. Se me permites, gostaria de te fazer uma proposta. Basta olhar para essa gente toda aí, só na palheta e andando à toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para dar um upgrade na produtividade sistémica.
- É mesmo?
- Podes acreditar, porque tenho PHD em reorganização. Por exemplo, não vejo ninguém usando identificação. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?

- Ah, não sabemos.
- Percebeste? Sem controlo, há dispersão. E dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar em anarquia. Mas podemos resolver isso num instante implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.  - Que interessante...
- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.
- !!!...???...!!!...???...!!! (espanto de Pedro)
- Aí, contrataríamos uma equipa especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno dos investimentos dos confrades, do Grande Accionista... Ele existe, certo?  - Não duvides moço, sobre todas as coisas.
- Óptimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de serviços alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, parece-me extremamente atractivo com tantas salas disponíveis.
- Incrível!
- É óbvio que, para conseguir tudo isso, teremos de nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de cinco dígitos e todos os fringe benefits e mordomias da praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho a certeza de que vais concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar num Turnaround radical.

- Impressionante!
- Isso significa que podemos partir para a implementação?
- Não. Significa que tu terás um futuro brilhante... se fores trabalhar com o nosso concorrente. Porque acaba de descrever, exactamente, como funciona o Inferno...

publicado por portovoluntario às 17:44
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